Caminhando as Seven Sisters

Foi mais ou menos com uma semana e meia de antecedência que comprámos os bilhetes de comboio para ir até Sussex percorrer uma das caminhadas costais mais populares de Inglaterra: desde Seaford a Eastbourne, com as Seven Sisters (uma série de pitorescos penhascos) pelo meio, perfazendo um total de 21km.

Depois de uma previsão inicial de tempo agradável, o que nós não esperávamos era que três ou quarto dias antes da nossa partida fosse anunciada uma tempestade de última hora precisamente para esse fim-de-semana. Decididos a não desperdiçar os bilhetes de comboio – mesmo com previsões de -5º, vento, neve e chuva – eu, o Ema e a Ieva lá nos fizemos ao caminho nesse enregelante sábado de Março.

Apanhámos o comboio de Londres para Seaford na estação de Victoria, passava pouco tempo das nove horas da manhã. Devido a obras na linha tivemos que trocar para um autocarro em Lewes para fazer o resto do trajecto. Seaford é uma terra pequena localizada na costa inglesa, não muito de diferente de todas as outras: a praia tem seixos em vez de areia, o mar cheira-se no ar e as casas, pintadas em tom pastel, possuem um estilo tradicional muito típico. 

Cabanas de praia coloridas num dia frio e cinzento em Seaford.

Começámos a caminhada junto à praia até chegarmos ao início da primeira colina, que subimos sem grande dificuldade. Quando chegámos ao topo ficámos espantados por encontrar… um campo de golfe! O espanto não foi tanto por isso, mas por estar cheio de pessoas a jogar, mesmo com ventos gélidos e temperaturas negativas. Prova de que há malucos para tudo! A primeira parte da caminhada foi calma e praticamente plana sempre no topo do penhasco, apenas ligeiramente desconfortável por termos o vento gelado a soprar-nos na cara.

A primeira paragem digna de registo foi junto às Coastguard Cottages – umas vivendas muito populares por oferecerem a vista mais icónica dos penhascos. Parámos aí durante uns minutos para apreciar a vista e tirar umas fotos e seguimos caminho. Como não nos íamos arriscar a atravessar o pequeno riacho que nos separava das Seven Sisters, tivemos que fazer um desvio de cerca de uma hora pelo interior. Caminhámos pela lama até encontrarmos uma ponte e, já na outra margem, fizemos o mesmo caminho no sentido inverso num campo habitado por um rebanho de ovelhas simpáticas.

Vista icónica das Seven Sisters desde as Coastguard Cottages.

O primeiro penhasco das Seven Sisters (visível na foto acima) é, de longe, o mais difícil de toda a caminhada. A inclinação é acentuada e o fôlego vai ficando rapidamente pelo caminho. Uma vez chegados ao topo, a vista faz valer o esforço despendido na subida. A partir daí é tudo um bocado mais do mesmo, subindo e descendo. As vistas são boas, mas a magia das “sete irmãs” está em vê-las ao longe, até porque não é recomendado que se chegue a menos de cinco metros da beira devido à fragilidade dos penhascos, que são compostos de giz!

Percorrendo as colinas que compõem as Seven Sisters.

As Seven Sisters ficam localizadas mais ou menos a meio do percurso e a paragem de interesse seguinte é o Birling Gap, uma comunidade muito pequena com casas rústicas que possuem vistas incríveis sobre o Canal da Mancha. Tem também um pub e acesso à praia (que estava fechado, por ser Inverno). Decidimos parar junto ao pub para comer a merenda que trouxemos de casa e, passados nem vinte minutos, tivemos que seguir caminho por causa do frio que se fazia sentir.

Eu e a Ieva tínhamos as mãos geladas e precisávamos urgentemente de começar a andar para aquecer. Subimos a primeira colina sem problema, mas a neve – que tinha parado de cair uma hora antes – parecia estar a voltar. A nossa primeira paragem (rápida!) foi no farol Belle Tout, que foi movido para a sua posição actual para evitar que caísse com o desgaste do penhasco.

A paragem seguinte – a última antes de chegarmos ao nosso destino – foi um pouco mais à frente, para ver outro farol: desta feita o Beachy Head. Junto com a vista icónica das Seven Sisters por trás das Coastguard Cottages, a vista deste farol de cima dos penhascos é provavelmente a segunda mais conhecida de toda a caminhada. Batalhei um pouco com as mãos geladas para conseguir tirar umas fotos, mas saí de lá satisfeito com os resultados!

O farol de Beachy Head, outra vista icónica neste percurso.

Daí até Eastbourne, onde a caminhada terminou, tudo correu de forma regular, sem nada a apontar. A chegada à cidade, que nos espera ao fundo de uma colina, é espectacular. A longa caminhada de quase 2.5km até ao Pier, nem tanto. Lá chegados, cruzámo-nos com um empregado que punha sal no chão antecipando a previsão de neve e gelo para o dia seguinte e optámos por não ficar lá muito tempo – verdade seja dita, o Pier estava deserto e não havia nada para ver.

A espectacular chegada a Eastbourne.

Cansados e esfaimados, parámos no McDonald’s mais próximo da estação de comboio para comer e aquecer até ser hora de apanhar o comboio. O caminho de volta para Londres fez-se bem e a opinião entre nós parecia ser unânime: apesar do frio e desconforto ocasional por que passámos na caminhada, não restavam dúvidas que não cancelar o nosso plano tinha sido a decisão acertada.

Eu gostei da caminhada, mas achei que não tivesse vivido à altura daquilo que tinha antecipado. Não a achei muito difícil, pelo menos quando comparada com a outra caminhada costal que fiz: de Weymouth até Lulworth Cove, para ver a Durdle Door, em Dorset. Ainda assim, é certamente um dia bem passado! Talvez tenha que lhe dar outra hipótese no Verão.